IDADE DA PEDRA

Apresentação de JORGE MAUTNER:
As poesias de Beatriz Azevedo neste livro intitulado Idade da Pedra me fazem vibrar de entusiasmo e de incrível deleite de prazer. São criações de uma poeta maravilhosa que nos surpreende a cada verso.
Ao ler seus poemas uma grande graça cheia de humor, sutilezas, belezas, informações, pensamentos filosóficos eternos e modernos nos atinge com sua radiação de cores maravilhosas. E uma permanente graça, quase divina, mas com certeza bem feminina e felina, nos ilumina.
Eu diria que além de sua profundidade e significados imanentes, os seus versos possuem uma cadência muito sensual, uma certa melodia oculta que produz ainda mais significados e insinuações paralelas que nos levam a um orgasmo espiritual.
Ela pega o concretismo e o transforma em existencialismo. Seus poemas são assim: uma graça infinita, um prazer de ler, ironias, charmes, brincadeiras, trocadilhos, beleza, intensidade, e mais uma vez, selvagem sensualidade pagã.
Vejam só um pequeno trecho: "Carandiru, Candelária, Vigário Geral, Carajás, Feliz Natal". Ela vai fundo na essência do ser, mas sem nunca perder as perfeições da forma. É evidente que além de todas as qualidades já indicadas, ainda ficam bem claras as preocupações humanistas e sociais desta magnífica poeta.
Editora Iluminuras
A ilha é mais bela vista de São Sebastião
A lua vislumbra-se da terra
A cidade se revela pela janela do avião
Para ver Manhattan, vá ao Brooklyn
Atravesse a ponte que separa
O olho do rio da razão
E veja a Baía de Guanabara
No deslumbre da visão
A lua Alhambra-se na terra
Manhattan flutua na janela do avião
O mar marav
ilha-se da razão
atravessa a ponte que separa
Brooklyn de São Sebastião
poema na areia
o grande mar engole
para nunca mais
no entanto
cada onda traz
conchas
pérolas
corais
a natureza invade a minha janela
também bela
ela passeia com seus seios
pela passarela
a vaca
com piercings na orelha
o poeta nada merece o mar
nenhuma palavra desmerece o mar
o homem nada não conhece o mar
mergulha na água sua cabeça não entende o mar
a água do seu corpo não navega o mar
o barco a vela não acende o mar
ninguém nada reconhece o mar
só o mar sabe nadar
o homem no mar imenso nada
penso
o poeta no mar
nada no imenso
o mundo
nada
mesmo
a mulher nada se oferece ao mar
o mar desconhece o mar
o homem nada se assemelha ao mar
o homem nada nada nada nada nada nada nada nada
não
alcança
o mar
apaixonar-se por uma puta
ter o abismo nos olhos
revoltar-se contra a banalidade dos manuais
amar os poetas que se odeiam
sobretudo aqueles que se insultam mutuamente
nas rodas literárias
não pertencer a panelinhas
cozinhar as tripas da poesia
no caldeirão dos bruxos
namorar o crepúsculo
trair o espelho e o tempo
casar-se com o sol
colher no asfalto a flor azul do silêncio
depois da passagem apocalíptica
do caminhão de lixo
perder o trem perder a hora perder a conta
perder o amigo e a piada
mas não perder a esperança nem o humor
não perder a paciência
nem a suprema soberania do amor
idade da pedra tecnológica
idade da pedra cibernética
idade da pedra
idade da pedra
globalizada esterilizada vacinada
tomografia computadorizada
idade da pedra
chacina parricídio aids suicídio
ressonância magnética
viagem internética
idade da pedra
idade da pedra Carandiru
idade da pedra Candelária
idade da pedra Vigário Geral
idade da pedra Carajás
idade da pedra Feliz Natal
clonagem
idade da pedra
assédio assexuado
idade da pedra
fim do milênio era de aquário ano 2000
idade da pedra Carandiru
idade da pedra Candelária
idade da pedra Vigário Geral
idade da pedra Carajás
idade da pedra Feliz Natal
fim do mundo
idade da pedra
idade da pedra eletrônica
idade da pedra supersônica
idade da pedra cômica trágica faraônica biônica
idade da pedra bomba atômica
fim da utopia histórica
começo da utopia histérica
da igreja histérica
do pastor histérico
do rebanho estéril
diante do deus da televisão
o esquecimento total
da pedra fundamental
da pedra iniciática
da pedra mítica
da pedra filosofal
da verdade rítmica do rito tribal
da pedra bíblica
da pedra de Pedro
da pedra védica
xamânica
do tempo imemorial
da pedra estrela transcendental
pedra que revela
oráculo dos deuses
pedra sagrada
idade da pedra Carandiru
idade da pedra Candelária
idade da pedra Vigário Geral
idade da pedra Carajás
idade da pedra Feliz Natal
o mundo está na idade da pedra cética
na idade da pedra apática
da pedra prática
idade da pedra sem ética
idade da pedra cínica
a pedra democrática apática ridícula cética cínica e matemática
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pau de arara hopi hari hot dog
jesus pagode xuxa celular
deus me livre delivery God
i.n.p.s. i.n.s.s. i.s.s. bndes
f.h.c. m.s.t. c.n.b.b. t.r.t
éfebeái funai
febem funabem
pitta c.p.i.
u.t.i. c.t.i. f.m.i.
dialeto yankee tupi
idade da pedra Carandiru
idade da pedra Candelária
idade da pedra Vigário Geral
idade da pedra Carajás
idade da pedra Feliz Natal
realidade virtual
idade da pedra real
da fome real
do pesadelo da escuridão da noite real
nas ruas desta capital da idade da pedra nacional
da idade da pedra do mundo global
biodegradável
biodegradante
idade da pedra detergente
idade da pedra emergente
idade da pedra comunidade solidária
idade da pedra comunidade solitária
idade da pedra egoísta individual
da pedrinha mínima só minha
da minha pedrinha mimadinha
se essa rua fosse minha
é pau é pedra é o fim do caminho
Carandiru
Candelária
Vigário Geral
Carajás
Feliz Natal
idade da pedra bruta
idade da pedra estúpida
a pedra burra da disputa
a pedra da discórdia
a pedra da intolerância
a pedra da escória
idade da pedra da ignorância
idade da pedra da ganância
idade da pedra idade da pedra
idade da pedra lascada
do tráfico da pedra
da pedra química
da degradação da pedra
da exploração da pedra
da perda total da pedra
e a pedra linda
e a pedra preciosa
e a pedra e a pedra e a pedra
e a pedra nem tem nada com isso
quem quiser que atire a primeira pedra
PERIPATÉTICO

Editora Iluminuras
dei o primeiro passo para trás e já me pergunto por que estou andando de costas agora neste momento o que me move por onde não vejo vendo no chão as letras que nunca vi no chão porque elas sempre estiveram em outros lugares mas nunca embaixo dos meus pés como agora eu pisando nas palavras antes mesmo de saber com os olhos pisando com os pés o pé da página do livro da cidade que esta rua escreve para quem vê de cima para quem voa vendo o movimento dos automóveis dança de bauhaus ou para quem anda quem é a dança como você por exemplo peripatético andando de costas muito curioso por exemplo ou corajoso por exemplo ou ou ou pateta ou crítico achando tudo isso uma bobagem uma viagem de volta um vodu uma vadiagem ou em último caso uma viadagem da minha parte ou ainda uma obra de arte da linguagem a conversa fiada de poeta redemoinhos de palavras no liquidificador as cascas da cebola descascando palavras cozinhando a prosa passo a passo descendo esta escada quantos degraus ainda a poesia vai deslizar no tempo me desesperar nesta suspensão que parece não ter fim mas tem sim uma surpresa
:
agora vamos virar esta página virar esta esquina na mesma máquina em movimento perpétuo de andar sobre as palavras agora misturadas com a sombra das outras com o eco das esquinas quebradas bruscamente com buracos no meio da frase um poema sobre o meio do poema paquerar a cidade parar a cidade para ler o poema fazer a cidade passar dentro do poema no ventre do poeta o poema passarela para ela lendo-se neste poema que é um problema para a cidade andando atrás das palavras com este anzol este anzolho pescando peixes para comer embaixo da sola do meu sapato em plena metrópole eu andando devagar enquanto tudo vai a galope eu aqui caindo neste golpe nesta armadilha que me ilha no centro das palavras de um poema esdrúxulo um luxo de poema explícito sujo com buracos no meio dos edifícios um poema difícil de se exibir nos meios em certos meios que só justificam os fins um poema meio sem fim que não acredita no fim do poema e quer parar a cidade para ler o poema fazer a cidade passar dentro do poema a cidade ser o poema do futuro agora nesse poema que é um presente para a cidade
poema em vinte e três capítulos
sem o teu amor nenhum poema rasga o dia
nenhuma pedra fura o mar
aremesso o meu desejo para o dia em que você chegar
me arranhando as costas
eu deixo porque sei que você gosta
sei quando se mostra
me dá as costas
vai embora para outra esfera
me olha nos olhos e me ignora
pergunta na hora das respostas
e responde impressionista com a pressa das telefonistas
vira uma fera quando me espera
e me espera e me espera e me espera
me odeia quando me espera
e esperando se revela
: me ama quando me espera
e agora sou eu que te espero e te espero e te espero
a multidão das ramblas é um deserto
o Alemão gigante o Japonês mignon
a música do oriente o microtom
eu prefiro o teu amor bendito
só quando eu te amo é que eu existo
é que eu insisto com as palavras
senão eu desisto das palavras
e assisto na televisão a previsão do tempo imprevisto
eu sofro com seu amor esquisito
eu preciso do seu amor impreciso
eu gozo quando encosto no seu sexo oferecido
seu sexo meu sexo parecido
o mar está tão indeciso
nenhum poema rasga a noite
nenhum peixe no oceano
atiro meus planos para o dia em que você chegar
sem você eu fico tão besta
não quero saber de festa
fico modesta, modesta
e espero o dia em que você chegar
invento o novo me repito de novo
o novo de novo imito ícaro na beira do abismo
eu brinco com as palavras
eu minto com as palavras
é nas palavras que eu existo
as palavras são asas
eu me mato em cada palavra
o mar permanece indeciso
nenhuma terra à vista
nem paz nem tormenta
meu deus
por que sou tão imperfeita
tenho tudo que me contenta
e permaneço assim insatisfeita
eu enxergo no escuro a luz que a noite revela
o feio que é força bela
e ela que nem sabe a beleza da fera
eu navego no futuro para onde o navio me leva
um anjo me carrega e de cima eu vejo a terra
eu vejo a fome eu vejo a fama nada me engana
tudo se rebela e movimenta quando a gente ama
eu enxergo no escuro a luz que me cega
tão cedo o sol chega para as pessoas certas
novas ovelhas que cortam as orelhas
eu vejo novas abelhas em flores velhas
todas as cores dele na gravata amarela
eu vejo a fome eu vejo a fama nada me desespera
tudo se rebela e movimenta quando a gente erra
eu escorrego no escuro que a luz projeta
cinema você tem que ver na tela
a tua cara mascarada de novela
no teatro é máscara da tua própria cara
coisa clara como parábola de profeta
a poesia é uma arte exata
que salta acrobata da boca do poeta